Sunday, August 23, 2009

O pátio


Quando eu era pequena os verões traziam-me os pátios da portela. Não era nada mais do que espaços de cimento e rodeados de muros, mas para mim os pátios da casa da minha avó estavam perto de serem a melhor coisa do mundo.
A rotina era simples e fácil, acordar ao meio-dia para o almoço (escolhido de véspera), banho, e aí pelas 3 horas já "me tocavam" lá do intercomunicador. E tanto que me tocavam, os Pedros, a Inês a Sofia, e tantos mais. Depois disso era brincadeira até às 7:30 quando se subia para jantar, um breve intervalo num dia que durava, primeiro até às 10 e depois até às 11:30.
Ai como eram boas as noites no pátio, antes da idade dos namoros, jogavam-se jogos das escondidas (que valiam sempre na rua inteira), às cartas, ou simplesmente se falava enquanto nos deitávamos para olhar as estrelas.
O que os dias do pátio tinham, era que de entre aqueles muros todos que saltávamos, já sem dificuldade, todos sentiamos perfeitamente livres e cheios de vontade. O sol, a chuva, calor e mesmo as noites frias nada podiam contra aquelas amizades verdadeiras que se julgavam para sempre. Nesses dias a vida era fácil, havia livros, comidinha boa sempre a horas e mais que tudo isso, o tal de pátio que estava sempre lá com uma promessa de brincadeira e diversão

Friday, August 07, 2009

A Vida Banal

Diz-se mal da música portuguesa. Quando se fala nela o "na minha cama com ela" e a "Princesa"vêm rápidamente à cabeça. Mas se nos esquecermos das Mónicas Sintras e do Samuel o Cachopo encontram-se coisas com piada. Todos sabem que não gostando de hip hop eu tenho um fraquinho pelo hip hop/ rap português. As rimas que me fazem rir pelo toque que têm no rídiculo, conseguem sempre ter um fundo de verdade. Para provar o que digo deixo-vos um bocadinho de doninhas:


"Hoje o Velho Restelo veste nike veste adidas,
Pensa que é cool, mas só repete frases batidas!"


e ainda no mesmo CD...

"Fui ao céu falei com Deus, perguntou-me: Tá-se bem?
Vai com calma puto, tudo o que precisas o teu mundo tem
Contempla, compreende e evolui
Liga-te à terra, vais ver como ela flui"


Digam lá se não sai um sorriso de troça e um 'humm' pensativo ao mesmo tempo?

Friday, June 26, 2009

Aeroporto

Mal posso esperar pela minha próxima visita ao Aeroporto. Sempre achei que as pessoas que trabalham nos aeroportos tinham que ser pessoas felizes. A disneylândia ainda não passeou como deve ser por um aeroporto decente, se não não se autoproclamaria (uau palavra engrçada) "The Happiest place on Earth".
Sejam quais forem as razões que nos levam a passar pelo aeroporto, estes são sempre lugares agrdaveis (pelo menos os principais). Há sempre tempo para comer qualquer coisinha, mesmo que se gaste mais uns trocos ninguém se preocupa muito porque se está num lugar que mais ou menos não existe. O passo dos viajantes é geralmente eficiente mas ao mesmo tempo relaxado e há no ar uma promessa de qualquer coisa boa que há-de acontecer. Mesmo para os viajantes com algum traquejo há sempre um nervosinho na barriga, muitas coisas para pensar e um sentimento levemente parecido com a véspera de Natal da infância.
É uma espécie de limbo, a estadia no Aeroporto. Um lugar de passagem onde se pode comprar perfumes caros, caixinhas fofas de maquilhagem de marca, muitos chocolates suiços e todos os productos normalmente taxados porque fazem pior à saúde, como o alcool e o tabaco, estão sempre mais baratos, como se nos piscassem o olho a dizer " pronto vá lá aqui não faz mal".
Mais do que isso, há sempre coisas para ver num Aeroporto, as montras, as pessoas que passam de todas as nacionalidades e mais algumas, o ar sempre bem arranjado (inveja!) das hospedeiras que parecem acabadas de sair do cabeleireiro , os aviões que vão aterrando... emfim toda uma panóplia de coisas para nos entretermos.
É por tudo isto que eu, mesmo com 13h de vôo e às vezes com outras tantas de escalas, gosto de viajar. Não é só pelo destino em si, mas mesmo fazendo isto desde os 6 meses, pelo ritual todo que isso implica. Tudo vale a pena quando depois de todas estas provas, se chega ao destino e, seja ele qual for, há uma cara conhecida à nossa espera.

Tuesday, June 23, 2009

London in the Summer Time...

Assim diz um verso dos Red Hot. A razão pela qual o verão Londrino chama tanta atenção é simples, é um evento raro que dura pouco tempo. A cidade enche-se de vida, e os Londrinos ficam felizes por mostrar que também sabem aproveitar o bom tempo. Há gelados, ar-condicionados nos restaurantes e nas estações de comboios anuncia-se que no tempo quente é melhor trazer sempre uma garrafa de água e chapeu. Note-se que isto é aos 19 graus, mal posso esperar pelos 20 e tal.
Para nós, Londrinos emprestados que viemos de lugares baratuxos, não podemos gozar Londres no seu explendor: os bares chiques com cocktails estranhos, os muitos restaurantes famosos de todas as nacionalidades e os conhecidos Musicais são claramente para outras bolças. Mesmo assim ainda há os passeios pelas muitas montras de Oxford Street, o ocasional concerto de Jazz que o namorado nos oferece e, claro está, uma refeição completa no McDonald's por 3.79£.

Wednesday, June 10, 2009

Encruzilhadas

Há uns quantos momentos na vida que nos definem. As escolhas que fazemos em 5 minutos, se seguimos em frente ou viramos à direita, podem mudar todo o nosso mundo. Na grande maioria das vezes não podemos saber que estamos a fazer uma escolha importante, o acidente que temos ou a pessoa que conhecemos no café são fruto de uma sequência de acontecimentos que não podemos planear. Outras vezes está tudo nas nossas mãos, a escolha cai terrivelmente na nossa responsabilidade e o destino não tem nada a ver com o assunto. Nestas alturas é quando escolher o caminho da encruzilhada se torna complicado. Meio às apalpadelas é isso que nos pedem, dizem-nos frases feitas do tipo "conhece-te a ti próprio", dão-nos uma merenda para a viagem e o resto é connosco.
Aqui, sentada no meio de uma encruzinhada gigante, lembro-me da ângustia existêcialista de que fiz tanta troça, nada nos traz mais correntes que a liberdade da escolha.

Sunday, May 31, 2009

FODA-SE


De há dois dias para cá acabei oficialmente o meu curso. Ainda não tenho canudo nem o chapéu esquisito, mas para todos os efeitos acabei o meu último exame. À minha volta vejo gente entusiasmada com o futuro, projectos a serem feitos ou caras chorosas pelas amizades que vão, mais uma vez, deixar para trás. Aquim na St. Peters Grove o frenesim é diferente, há caixotes para fazer, roupa para escolher e o futuro parece ainda a anos luz de distância. Não sei muito bem onde encaixo e os meus sonhos ainda não apareceram. Confusa espero pelo tempo em que me vou enroscar no sofá a comer chocolate e a ler livros pesados como nos bons velhos tempos em que ainda usava vans e não via séries.
"Quando o presente é incerto e o futuro é distante o passado vem-nos sempre à memória como o tempo em que fomos felizes", assim lia um conto de autor do meu livro de Português do nono ano (ou pelo menos qualquer coisa parecida). Agora aqui sentada na minha cama às 6:28 da manhã, percebo finalmente o conto que estudei há tantos anos: a realidade avassaladora que o amanhã há-de chegar, traz-nos um sentimento qualquer desconfortável que preferimos substituir como uma memória qualquer que julgamos feliz. Agora é finalmente a hora e eu não sei o que fazer com ela... FODA-SE!

Thursday, May 14, 2009

Pelos Teus Lindos Olhos

Não sei porquê, talvez tenha sido a lata de coca-cola e o brigadeiro de chocolate... Foi qualquer coisa. Provavelmente foi o vinho e a vodka, ou até a flor-de-lótus gigante. Não foram grandes gestos românticos que se vão embora ou se repetem. Demorei uns anos a descobrir, mas acho que foi uma entrada num curso e um abraço forte no aeroporto quando me viste. Mas principalmente a cóvinha do lado esquerdo da tua cara e o sorriso corado que se seguiu.

Apátrida



Fui portuguesa durante bastante tempo. A poesia que li foi toda em português, estudei os Maias, comi caldo verde com chorico e torci pela equipa nacional. O meu sonho aos 15 anos era puder ter 18 e pôr o meu voto em branco numa urna. Vivi as reformas do ensino e novo código do trabalho com coracao na boca, sabia o hino de traz para a frente e, mais que isso tudo, vivia a sonhar com o sol portugês. Portugal era em todos os sentidos possiveis a minha pátria, a minha terra.
Nunca por segundos me lembrei que tinha nascido em África e vivido a minha vida toda na Ásia. Julgava como todo o meu ser que tinha a indentidade etendida e arrumadinha com o meu passaporte.
Quiz o destino, e a minha grande teimosia, que eu fosse para portugal. Na altura não cabia em mim de contente, todos os meus problemas se iam acabar. Amor, felicidade e muita luz era o que me esperava no país do céu azul, na Lisboa dos romances do Eca, na Évora do Virgílio Ferreira. Subir o bairro alto, passear na baixa e pedir "uma bica se faz favor", pareciam ser coisas de um sonho qualquer. Finalmente ia estar com os meus.
A desilusão não passou pelos banhos de chuva fria do Inverno português, nem por viver num colégio interno nem nada dessas coisas... Não, o momento triste foi quando eu descobri que não gostava de bicas e que afinal ninguem tinha lido a aparicão.

Tuesday, March 17, 2009

Here Comes The Sun Little Darling

É verdade, o sol parece estar a chegar e a temperatura já quase que se mantem nos dois dígitos. E eles tinham razão tem sido um "long, cold, lonely winter", e sim parecem mesmo anos desde que o vimos pela última vez...
Só nós, probres exilados cá da ilha, é que percebemos a canção!

Thursday, March 12, 2009

The Wonderer

I went out walking
Through streets paved with gold
Lifted some stones
Saw the skin and bones
Of a city without a soul
I went out walking
Under an atomic sky
Where the ground won't turn
And the rain it burns
Like the tears when I said goodbye

Yeah I went with nothing
Nothing but the thought of you
I went wandering

I went drifting
Through the capitals of tin
Where men can't walk
Or freely talk
And sons turn their fathers in
I stopped outside a church house
Where the citizens like to sit
They say they want the kingdom
But they don't want God in it

I went out riding
Down that old eight lane
I passed by a thousand signs
Looking for my own name

I went with nothing
But the thought you'd be there too
Looking for you

I went out there
In search of experience
To taste and to touch
And to feel as much
As a man can
Before he repents

I went out searching
Looking for one good man
A spirit who would not bend or break
Who would sit at his father's right hand
I went out walking
With a bible and a gun
The word of God lay heavy on my heart
I was sure I was the one
Now Jesus, don't you wait up
Jesus, I'll be home soon
Yeah I went out for the papers
Told her I'd be back by noon

Yeah I left with nothing
But the thought you'd be there too
Looking for you

Yeah I left with nothing
Nothing but the thought of you
I went wandering


u2, Zooropa- sung by Johnny Cash

Wednesday, February 25, 2009

Saída de Casa


O existir na vida é qualquer coisa de complicado. Ningém nos prepara, nem a melhor das educações, para o que vem fora de casa. Fora de casa o mundo é grande, vasto e estranho e o mais dificil é que fora de casa somos mudos e invisiveis. Não há desconto para a menina irreverente ou nervosa, ou qualquer coisa que a menina seja, porque lá fora há muitas meninas. Não é que não nos avisem dentro de casa para o que nos espera lá fora, mas regam sempre o final com sorriso e um chocolate quente (que é como quem diz uma coca-cola com gelo e limão), e a atenção volta para o que está em cima da mesa, para o cheiro familiar que nos envolve e para o olhar parado das coisas que já nem vemos de tão bem que as conhecemos.
Fora de casa temos saudades de todas essas coisas, e sabemos de cor, sem nenhum esforço de memória, todas as suas formas e características. Mesmo assim saímos de casa, deixamos tudo, não num acto qualquer de coragem, mas porque a saída é inevitavel. O desconhecido , o sonho e desejo ao que não conhecemos supera o amor à rotina diária, que julgamos conhecer, e vamos por aí felizes na nossa ignorância desfazer o paraiso com o fruto proibido.
Arrependidos, se voltassemos atrás fariamos o mesmo!

Thursday, February 12, 2009

A minha Caixinha



Eu tenho uma caixinha lá em casa, cheia de pó e coisas que tais, com a minha vida lá dentro. Tenho fotografias ainda muito novas para serem amareladas, cartas, umas de amor outras só de amigos, postais que fui recebendo dos meus dias de anos, bilhetes de festas, comboios, aviões, museus e cinemas, rosas secas e até uma beata de um cigarro (não sei bem porquê). De vez em quando, tiro a caixa do lugar limpo-a e acrescento-lhe mais coisas. Também tinha um diário e um album de fotografias que nunca cheguei a acabar, mas gosto mais da caixinha.
Um dia, quando for capaz, largo-a em qualquer lado, vou viver sózinha e não olho mais para trás.

Saudades Tuas

Para a Ana

Tenho saudades tuas e daquele tempo. Usavamos uma batinha verde e iamos dormir a casa uma da outra. A vida parecia simples e nós ainda não procuravamos respostas. Lembro-me de tua casa e dos pequenos almoços de bolachas, lembro-me da colecção Uma Aventura e que a tua preferida era em ''Evoramonte".
E depois crescemos, eu fui para o quinto ano e depois para o sexto, cada um deles com os seus dramas. Lembras-te da nossa primeira festa de finalistas e o que eu tive que implorar à tua mãe para te deixar ir? Ainda me lembro que foste à U2 comprar um conjunto de roupa preta e que até usamos rimel...bons tempos.
Mas o que eu tenho mais saudades e de viver os dias como viviamos naquele tempo, sempre à espera do próximo e do que ia acontecer depois. Macau parecia ter uma luz diferente e a Escola Portuguesa era o nosso mundo, para o bem e para o mal.
Entretanto foste-te embora e tantas coisas aconteceram, outras pessoas vieram e outras aventuras se passaram, mas all and all ainda tenho saudades de tuas e dos bons momentos que passámos juntas, com o teu irmão, o Pedro Pires , a Felipa Jales entre tantos outros.

Thursday, June 26, 2008

Paradise City (where there's no grass e as raparigas são o que São)


Caros leitores (que no fundo no fundo são sempre os mesmo quatro), falo-vos de Macau. Aqui as luzes dos casinos e das lojas ofuscam todos os olhos, há qualquer coisa por aqui (mais que o barulho constante das fichas de jogo) que chama a uma vida diferente. Os cristais, os neons, os grandes carros, as muitas motas criam um fru fru impaciente e apelativo. Dois dias em Macau, e todo este mundo abre o apetite para o luxo, mas também para a largueza. Nesta terra pequena onde nada tem a sua dimensão, é fácil perdermos-nos mas é fácil também encontrarmos-nos.
É no meio de toda esta confusão que as coisas pequenas se esquecem e perdem, vai-se alegremente de pijama ao supermercado, anda-se relaxado em caminhos escuros a altas horas, os velhos dançam vagarosamente o seu tai-chi nos jardins, e há uma calmitude que só pode nascer do caos, da confusão e da desarmonia.
É aqui em Macau que se passeia de tarde, que se almoça em casa, que se entra numa tasca qualquer a qualquer hora da manha, da tarde ou da noite, é aqui que a vida sem exotismos e sem barulhos acaba por existir.

Wednesday, June 18, 2008

As Mulheres e o Sex and the City


Disseram-me (um homem), que pior do que as meninas dos rappers de vos falei do post anterior , eram as senhoras do Sex and the City. Segundo ele, estas senhoras são o cúmulo da futilidade. Sim, uma pode ser advogada, outra uma PR famosa, outra uma jornalista e ainda outra pode trabalhar numa galeria de arte, mas talvez porque se vistam bem ou se importem com a imagem tem direito a ser comparadas com as meninas que aparecem nos clips de R&B.
As personagens desta serie, apesar de terem muitas coisas irritantes, representam uma classe de mulheres instruídas, que enfrentam sozinhas o dia-a-dia. Ao contrário do que este meu amigo pensa, as pessoas podem aparentar uma certa futilidade sem o serem completamente. Aliás como disse a verdadeira cultura pop serve-se disso para, com uma luva branca, esbofetear a cara de intelectuais presunçosos. Assim, estes saltos altos são calçados com amor próprio um sorriso no rosto e com a cabeça bem posta no lugar. Nas prateleiras de senhoras como estas vêem-se não só sapatos caros mas também bons livros, o que não têm que ser sinónimo de sapatos rasos e caras desmaquelhadas.
A pop culture , com eu tenho a certeza que o este meu amigo sabe tão bem, é apologista da sociedade de consumo. É a ela que vai buscar os temas com que se inspira. O neon brilhante e as latas vermelhas de coca-cola chamam a atenção desta arte, que vive fascinada com o dia-a-dia, e a única coisa grave, é confundirmos isso com o descrédito total da cultura e a apologia do "fast food" cultural do "ma bitch".
Não tendo a cultura musical do meu amigo, tão mais sábio que eu, sei que houve pelo menos tempos em que o RAP foi usado para criticar a sociedade e que o Rock cantou sempre coisas mais interessantes do que "a minha puta", e por mais alcool e gajas sempre foi ou quis ser, underground.
E para concluir, antes mulheres com bons sapatos que machões de grandes carros, uns têm classe os outros são simplesmente...machões.

PS: Ninguém diz que os sapatos rasos não são igualmente elegantes :P

Thursday, June 05, 2008

POP Culture e afins




Houve tempos talvez, em que a POP culture, movida por interesses políticos e coisas que tais, representava ideias revolucionarias. Tudo passou a POP, a música, a arte e até mesmo a literatura. POP, ou popular, não era frívola nem desprovida de interesse e qualidade ,antes representava uma luta que a classe intelectual já cansada e velha precisava de ter com uma cultura de massas que por se-lo era não era menos nova, pujante ou cheia de coisas para dizer.

Algures no caminho alguma coisa se perdeu. Agora a arte da frivolidade aparente, deixou o "aparente" (e francamente a "arte") para ser simplesmente frívola. Agora já não se ouve música POP porque ela é diferente ou pujante, mas porque ela é fácil e está na moda. As cantoras e as bandas já não escrevem as músicas, elas são desenhadas por grandes empresas que sabem o que cativa as pessoas e os jovens. Perdeu-se a mensagem, o POP já está velho, corrompido e a precisar de reforma.

Mas nada disto é o pior ou o perigo da POP culture. O grande problema é que enquanto estamos muito divertidos na discoteca a dançar ao ritmo do R&B , dançamos e bebemos a coisas como "ma bitch" isto e "ma bitch" aquilo. Tratar as mulheres como a minha puta isto a minha puta aquilo, passou a ser cool. O RAP, que antes era música de intervenção política e social, agora passou a ser a música de homens grandes, vestidos com roupas 10 números acima que usam diamantes, compram muitos carros com spinners, e têm muitas mulheres boas que só vestem bikinis e sapatos altos e que não se importam de serem as "ma bitch" daqueles homens tão cool. Mas a verdade é que enquanto o pessoal curte a música e o ritmo estonteante a mensagem vai, infelizmente, passando. E passado pouco tempo já não são só os rappers que tratam as mulheres por putas, os filmes e eventualmente o público passam a fazer o mesmo.
A música, a arte e a literatura, mesmo que POP deviam servir para resolver os problemas sociais de uma classe que se exprime de maneira não intelectual... Quando é que passou a ser cool, denegrir a imagem da mulher, aplaudir as medidas políticas estranhas dos governos e aceitar o status quo?

Sou só eu ou a cultura POP vai ficando cada vez mais reaccionária enquanto nós o público alvo, vai ficando menos capaz de ver para além dos carros grandes, das mulheres boas, e ignorar coisas como messangens políticas bem disfarçadas de hollywood e afins? Não pretendendo substituir a cultura POP por nada vermelhinho ou de esquerda, é no entanto, mais que necessário abrir os olhos e fazer qualquer coisa.

PS: a autora deste texto não se veste de preto nem é hippie. Ouve Guns and Roses, usa sapatos altos e vê filmes e series até mais não.


"I am for an art that takes its forms from the lines of life itself,
that twists and extends and accumulates and spits and
drips and is heavy and coarse and blunt and sweet and
stupid as life itself."
Claes Oldenburg (about POP Art)

Wednesday, May 21, 2008

Sempre Coca-Cola


Ah nada no mundo e melhor do que uma coca-cola com gelo e limão. Note-se, COM gelo E limão! Nada é melhor que aquele tsk shhhhh de quando se abre uma lata vermelhinha. Sim pois a moeda no copo que fica limpa e o bife que fica desfeito... Prrrooonnnttttooo. Mas sinceramente, até pode ser verdade, e depois? Alguem sobrevivia hoje em dia sem o tskk shhhhh? Alguem teria coragem para desfazer os sonhos de milhares de criancinhas que acreditam que o pai natal é gordo e se veste de vermelho?
Na vida é preciso sentir gratidão, e eu sei que estou grata à coca-cola. Quase que estou grata aos americanos e às suas grandes corporações, sem eles o que seria de nós? Ainda bebiamos àgua e não tinhamos tempo para almoçar!

PS: nas palavras do grande F.P "Primeiro estranha, depois entranha"

Wednesday, May 14, 2008

Verão Aqui Na Ilha


Por cá o tempo começa a ser de verão, um verão calmo com uma certa brisa à tardinha e sol até quase às nove. Os vestidos frescos saem do armário e as raparigas inglesas passeiam-se alegremente com os seus hot-pants a mostrar as pernas já vermelhas do sol. A janela do meu quarto deixa passar os sons da rua e as cortinas cor-de-laranja reflectem a luz que finalmente faz lá fora.
A boa disposição é geral, abrem-se as esplanadas nos restaurantes, as pessoas correm à rua e nos jardins da universidade joga-se, cozinha-se e dormem-se sestas. Toda esta felicidade, subitamente trazida pelo tempo quente e reconfortante, faz-me sair de casa. De óculos escuros e vestidos de algodão lá vou eu pelas ruas a ouvir uma música qualquer. Quase sem dar por isso sento-me na minha sala de exame e começo a escrever. Ao meu lado as inglesas, já há muito no seu summer mode, tiram alegremente os chinelos, estendem as pernas nuas e começam a escrever também. Esboço um sorriso, quase de troça, e fico feliz por estar em Terras de Sua Magestade!

Saturday, April 26, 2008

Amor à primeira Vista


Caros leitores, como todos nós sabemos o amor é uma coisa terrivel... Estamos nós muito bem na rua, preocupados com os 6 exames que aí vêm, muito tristes e chorosos a pensar nas mil e uma maneiras de dizer aos papás porquê que este ano não correu tão bem, e assim sem mais nada o mundo pára. Não, não é o Jude Law (ele é inglês mas não anda por Canterbury), é um par magnífico de saltos altos. 12,7 centímetros de pura beleza, às risquinhas azuis e brancas com um salto e uma cunha vermelho-envernizado.
Como acontece a qualquer pessoa apaixonada o meu coração batia rápidamente, e eu fiz a única coisa que podia fazer, entrei na loja e pedi para os calçar. O amor impossivel é qualquer coisa de inacreditável, e este tem 70 grandes razões para ser impossivel. Então passei alguns minutos a passea-los na loja e até resisti quando o sr e a sra me explicaram que era o penúltimo par e que o próximo shipment era só em julho.
Tudo isto porque eu sou uma pessoa contida e não porque não gasto 70 libras num par de sapatos... oh well life's hard..

Friday, March 14, 2008

Homenagem a Cesário Verde

Um dia, quando tiveres tempo ensinas-me a pintar quadros interminaveis com rimas cruas e palavras claras. Quero escrever sobre qualquer coisa como tu contas as tuas historias. És o poeta que vê, e nós vemos tudo contigo.Amas o que vês, da única maneira verdadeira de amar, sem ilusões. Não há mentiras nas tuas linhas, as tuas telas não são felizes mas nem tanto são tristes. Têm o tom supremo da Arte e são apenas!

De tarde

Naquele «pic-nic» de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas.


Cesário Verde